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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Sem acordo, custo de proteção contra default americano bate recorde

Sem acordo, custo de proteção contra default americano bate recorde
O custo do seguro contra um default dos Estados Unidos atingiu um patamar recorde ontem, num sinal de que a inquietação crescente com o impasse em Washington em relação à elevação do teto da dívida federal poderá resultar numa incapacidade do Tesouro americano de pagar juros aos detentores de bônus. O mercado de compra e venda de seguro sobre a qualidade do crédito dos Estados Unidos tem pouca movimentação, é denominado em euros e dominado por bancos europeus e britânicos. Mas os negócios com os chamados swaps de defaults de crédito (CDS) aumentaram com a possibilidade maior de um default americano.Em um CDS, um comprador de proteção é compensado pelo vendedor se houver um calote ou não pagamento, conhecido como evento de crédito. "O mercado de CDS dos EUA tem uma liquidez bem menor que outros mercados soberanos, uma vez que até recentemente ninguém imaginaria que a possibilidade de um evento de crédito dos EUA poderia ser tão alta", diz Ira Jersey, estrategista do Crédit Suisse. "O mercado está ficando nervoso diante do risco de um calote."Os prêmios dos CDS soberanos de um ano dos EUA tiveram um repique esta semana, sendo negociados ontem em torno de 90 pontos-base em Londres, superando a alta anterior estabelecida em março de 2009.Num sinal da maior preocupação com um default no curto prazo, o CDS de um ano dos EUA foi negociado a um preço maior que os prêmios dos títulos de cinco anos, que têm mais liquidez: 65 pontos-base, pela primeira vez. Otis Casey, diretor de análise de crédito da Markit, disse: "Normalmente você vê uma inversão da ponta inferior em emissores que estão com muitos problemas".O tamanho líquido do mercado de CDS dos EUA, ou a exposição de fato do mercado, é de US$ 4,9 bilhões. Os EUA estão acima da exposição da Grécia, de US$ 4,6 bilhões, mas abaixo da exposição do Reino Unido, de US$ 12,3 bilhões, segundo dados da Depositary Trust and Clearing Corp.Analistas disseram ontem que, dado o custo da compra de proteção para um ano e o risco do Tesouro perder um pagamento da dívida no mês que vem, há a possibilidade de um pagamento enorme para os investidores neste cenário.Mas isso precisa ser considerado contra a probabilidade do teto da dívida ser elevado e a possibilidade do Tesouro se esforçar para cumprir com suas obrigações durante o período de carência de três dias antes de um evento de crédito ser oficialmente declarado.Estava previsto ainda para ontem a divulgação pela International Swaps and Derivatives Association (ISDA) de um guia para responder dúvidas sobre um possível default dos EUA. Na segunda-feira, a ISDA postou em seu site na internet uma série atualizada de esclarecimentos sobre a dívida soberana da Grécia.No cado dos EUA, um evento de crédito ocorreria se o Tesouro não conseguisse realizar um pagamento de bônus do governo. Nesta situação, um comitê sob os auspícios da ISDA decidiria que um evento de default ocorrera somente se o pagamento não tivesse sido feito após o período de carência de três dias. A essa altura, os negócios com CDS dos EUA seriam desencadeados e então liquidados.

Para mercado, medida é difícil de ser implementada

Para mercado, medida é difícil de ser implementada
Do jeito que foi editado, será muito difícil implementar o decreto que tem como objetivo conter a especulação cambial que provoca a valorização do real. Para especialistas consultados pelo Valor, a divulgação da mais abrangente ação cambial já adotada pelo governo na atual "guerra cambial" gerou tantas dúvidas que a reação imediata do mercado foi parar de operar. Segundo relato de profissionais, até o início da tarde de ontem, os negócios travaram e era difícil obter uma cotação de qualquer produto cambial junto a bancos. "A medida é tão ampla e vaga que deixou um certo descrédito em relação à capacidade do governo de implementá-la", afirma o gestor de um fundo estrangeiro.Embora o dólar tenha reagido em forte alta por conta das medidas, analistas consideram que os efeitos sobre a cotação da moeda americana devem se restringir ao curto prazo e não eliminam a tendência de queda por conta do cenário internacional. A principal dificuldade vista pelos profissionais é quem fará a consolidação das informações sobre exposição cambial. Apurar o saldo da exposição cambial de um agente que opera com dólar futuro, swap cambial, títulos públicos atrelados ao dólar, opções, entre outros, é uma tarefa considerada "impossível" com os instrumentos disponíveis no momento. Em relatório divulgado ontem, o economista do Itaú Unibanco, Darwin Dib, observa que a definição do preço de alguns desses ativos tem uma boa dose de subjetividade. "Até o vencimento, a precificação deste tipo de contrato varia de acordo com a metodologia utilizada por cada agente. A BM&F e a Cetip têm condições de fazer esta precificação? Como definir a precificação adequada?", questiona. A sensação do mercado é de que o governo correu para anunciar alguma nova arma diante da possibilidade de que a apreciação cambial em curso se agravar, diante do quadro externo. Só que, na pressa, pode ter vindo apenas um "rascunho" geral para que, ao longo dos próximos dias, definições e exceções sejam anunciadas. Até que venham os ajustes, a medida deve alcançar todo o mercado: do exportador ao investidor estrangeiro. "No fim, ele pode penalizar o exportador, que é quem deveria ser protegido", diz um especialista.Segundo o estrategista da Nomura Securities, Tony Volpon, tecnicamente, até uma operação de ACC (Antecipação de Contrato de Câmbio) pode ser classificado como um derivativo, uma vez que é a antecipação de uma receita futura em moeda estrangeira. E, portanto, poderia estar sujeita à tributação com IOF. "A rigor, qualquer instrumento de hedge é derivativo", afirma. "Se ficar como está, a medida vai encarecer muito o custo de hedge e de captação externa."A medida também pode gerar distorções. Analistas são unânimes em observar que um investidor que tenha projetos no exterior, que gere saída de dólares do país, assumirá uma posição vendida aqui, com o objetivo de zerar a exposição cambial. Nesse caso, o governo teria acesso apenas à posição vendida e esse investidor pagaria o tributo. "Se um banco ou uma indústria fizer uma aquisição no exterior e fizer um hedge aqui, ele será penalizado", observa. Situação semelhante pode ser vivida por fundos multimercados que compram cotas de fundos no exterior, em dólar. Para zerar a exposição cambial, esse fundo faria uma posição vendida no mercado de futuros e, consequentemente, estaria sujeito ao IOF.Para Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio da Mauá Sekular Investimentos, um efeito colateral da medida, portanto, pode ser a exportação do mercado brasileiro de derivativos, reduzindo a capacidade do governo de monitorar as posições das empresas e instituições locais, que passariam a fazer hedge no exterior. Diante das dúvidas, é possível dizer que a ação do governo deve, no curto prazo, reduzir os negócios realizados tanto no mercado futuro de câmbio na BM&F como nas operações de balcão realizadas na Cetip. Inicialmente, a BM&FBovespa é a maior perdedora com a medida. Em menor escala, a Cetip também deve ser afetada, enquanto o impacto para os bancos, que terão menos flexibilidade para operar tanto por meio da carteira própria como em nome de clientes, ainda é incerto.Nas estimativas do Barclays, os contratos cambiais representam aproximadamente 28% das receitas com derivativos negociados no segmento BM&F. Como consequência, existe um risco de queda de até 10% do total das receitas projetadas para a bolsa no pior cenário, segundo o analista Henrique Caldeira.No pregão de ontem, as ações da BM&FBovespa fecharam em forte queda de 5,45%, enquanto as da Cetip recuaram 0,72%. Procuradas, ambas as instituições informaram que não comentariam o assunto.

O recente boom de crédito

O recente boom de crédito
Uma das diferenças da teoria keynesiana em relação à teoria convencional é a importância fundamental que moeda e instituições financeiras têm no funcionamento da economia. Um sistema financeiro funcional ao crescimento é aquele com capacidade de atender via crédito a demanda de liquidez necessária para realização dos gastos dos agentes, e de criar mecanismos financeiros apropriados para realização da consolidação das dívidas das firmas investidoras, permitindo um ritmo de acumulação a um nível superior àquele que seria viável pela simples acumulação de poupanças prévias. Em economias em desenvolvimento, contudo, bancos podem aumentar sua lucratividade ofertando financiamento de curto prazo, sem estímulo para oferecer crédito de mais longo prazo. Assim, as firmas para expandirem suas atividades têm que recorrer à renovação de crédito de curto prazo, autofinanciamento e endividamento externo, elevando sua fragilidade financeira. O Brasil tem um sistema financeiro baseado no crédito bancário, com forte participação do Estado, em particular em algumas modalidades, como financiamento ao investimento (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES), crédito imobiliário (Caixa Federal) e agrícola (Banco do Brasil). É ingênuo acreditar que o mercado crie espontaneamente os mecanismos de financiamento Nos anos 1980 até meados dos anos 2000 o sistema financeiro brasileiro ficou caracterizado por sua desfuncionalidade: a oferta de crédito era baixa -menor que 35% do Produto Interno Bruto (PIB) - ao mesmo tempo em que mantinha uma rentabilidade elevada. Isso foi possível em função dos ganhos inflacionários, aplicações em títulos públicos e empréstimos de curta duração com spreads elevados. Após o breve boom de crédito durante a implementação do Plano Real, o volume de crédito caiu continuamente, atingindo 21% do PIB em abril de 2003, em período marcado por frequentes crises externas. O contágio da crise mexicana no início de 1995 levou o governo a adotar programas de reestruturação bancária e estimular a entrada de bancos estrangeiros, para fortalecer o combalido setor bancário. O êxito em evitar uma crise bancária e a entrada controlada de bancos estrangeiros permitiu uma reação dos bancos domésticos que participaram ativamente da onda de aquisições bancárias e se tornaram os lideres do setor, uma reação sem paralelo em outros países emergentes nos anos 1990.A partir de 2004 um conjunto de fatores estimulou o crescimento do crédito: aumento da renda, criação do crédito consignado em folha, melhoria no perfil da dívida pública, e uma certa redução nas taxas de juros. Todos os três segmentos do sistema financeiro (bancos públicos, privados nacionais e estrangeiros) ampliaram a carteira de crédito no período, movimento liderado pelos bancos privados nacionais. O boom de crédito foi puxado pelos empréstimos de pessoas físicas, mas a partir de 2007 cresceram bastante os empréstimos das pessoas jurídicas, sendo as principais modalidades crédito pessoal (incluindo consignado), aquisição de veículos e capital de giro. Já a partir de meados de 2008 houve um forte crescimento dos bancos públicos, que tiveram um papel contracíclico fundamental em 2009, evitando uma forte contração creditícia que contaminaria toda a economia. Cabe perguntar se houve uma mudança significativa no comportamento dos bancos no período recente. De fato, houve um alongamento no prazo médio dos empréstimos - de 200 dias em abril de 2003 para 476 dias em abril de 2011 - o que contribuiu para o crescimento na demanda por crédito. Por outro lado, embora as taxas de empréstimos tenham declinado no período, elas ainda se situaram em patamares bastante elevados. Das três principais modalidades de crédito, duas (consignado e aquisição de veículos) são de baixo risco. Nesse contexto, a rentabilidade dos bancos tem-se mantido elevada, face à combinação de aumento no volume das operações, spreads ainda elevados e relativamente baixo risco.Nesse contexto, os grandes conglomerados financeiros buscam segmentar sua clientela. Para clientes de alta renda, ofertam produtos customizados; para clientes de mais baixa renda, produtos padronizados. A incorporação de segmentos de baixa renda é feita em condições de exploração financeira, uma situação em que tarifas e taxas de empréstimos são bem maiores do que para os demais clientes. Eles podem incorrer, assim, em situações de armadilha da dívida, em que comprometem uma boa parte de sua renda com pagamento de juros.Historicamente não se pode atribuir uma situação de alta funcionalidade do sistema financeiro. Não se pode esperar que o setor bancário vá desenvolver linhas de financiamento de longo prazo, até mesmo em função do seu funding. Nesse particular deverá haver uma combinação entre instrumentos do mercado de capitais com financiamento do BNDES. É ingênuo pensar que economias em desenvolvimento como a brasileira possa se dar ao luxo de não contar com a atuação de bancos públicos e acreditar que o mercado espontaneamente crie os mecanismos apropriados de financiamento de longo prazo. Luiz Fernando de Paula, professor de Economia da UERJ, é presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB) e co-editor do livro Sistema Financeiro (Elsevier). Email: luizfpaula@terra.com.br

Pacote europeu não deve evitar novas turbulências

Pacote europeu não deve evitar novas turbulências
A duras penas os governos europeus chegaram a um consenso de como socorrer novamente a Grécia, dar um alívio no peso das enormes dívidas de Irlanda e Portugal e, ao mesmo tempo, sinalizar aos mercados que estão dispostos a tomar todas as iniciativas possíveis para impedir que o contágio se espalhe da periferia para as economias do centro da zona do euro. Foi a primeira ação um pouco mais ousada dos líderes europeus, depois de um ano de irresponsáveis delongas, hesitações e divergências. Ainda assim, as chances de novas turbulências persistem no horizonte. O pacote amarrado para a Grécia combinou nova ajuda de € 109 bilhões, cerca de € 50 bilhões de redução de dívida em mãos dos bancos privados, via reescalonamento e alongamento dos débitos, com taxas de juros menores. Digerido o plano, há uma crescente desconfiança dos mercados de que ainda não foi desta vez que os governos da união monetária poderão respirar aliviadosO primeiro ponto é que a ameaça de calote grego foi adiada, mas não afastada. A redução proporcionada pelo pacote à montanha de € 340 bilhões de compromissos, ou 150% do Produto Interno Bruto do país, foi pequena demais. Mesmo trazendo os credores privados para ajudarem a pagar parte da conta, a porção dos bancos e investidores foi considerada diminuta. Os títulos gregos podem ser comprados no mercado secundário com 40% de deságio. Os bancos aceitaram redução de 21% no valor presente das dívidas que têm em mãos e tiveram quatro opções para trocar títulos. No final das contas, porém, a dívida grega foi reduzida em apenas € 13,5 bilhões, segundo cálculos do Instituto de Finanças Internacional, que reúne os bancos que participaram do acordA Grécia ganhou maior prazo de pagamento, um alívio na carga de juros e uma necessidade ao longo do tempo de produzir superávits um pouco menores para pagar seus débitos. Mas o esforço que terá que realizar para pagar suas dívidas permanece árduo e as chances de sucesso, bastante improváveis. Pelas contas do Deutsche Bank ("Financial Times", 27 de julho), para que a dívida grega fique em 120% do PIB, o governo grego terá de obter um superávit primário não mais de 9% do PIB, mas de 5% do PIB de 2015 a 2020. É um esforço superior ao que o governo brasileiro, por exemplo, fez diante da desconfiança dos mercados diante da ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência. Nos primeiros anos de Lula, o superávit primário foi de 4,25% do PIB. Além disso, a dívida grega subirá em 2012 para 172% do PIB e, pelas estimativas da Barclays Capital (FT, 27 de julho) se manterá em 150% do PIB por mais dez anos. Para tornar-se administrável, os analistas acreditam que a relação precisaria cair para algo em torno dos 80% do PIB.O ponto forte do pacote, porém, foi a tentativa de erguer uma barreira para os futuros contágios - Espanha e Itália estão na mira dos investidores há algum tempo. As dívidas dos governos da zona do euro deixaram na prática de ser nacionais, um exemplo em negativo da união fiscal que precisará a duras penas ser conquistada, mas para a qual já se deram alguns passos. O fundo de estabilização ganhou papel fundamental com as incumbências de atuar nos mercados secundários comprando dívidas de governos castigados pelos mercados e abrir linhas de crédito preventivo para eles e para recapitalização de bancos - uma função algo semelhante ao cogitado Fundo Monetário europeu. Nem tudo é o que parece, porém. O fundo de estabilização não recebeu o dinheiro à altura de suas tarefas. Analistas acreditam que o montante precisaria ser o dobro ou o triplo dos atuais € 440 bilhões. Ele terá de atuar, de forma ainda nebulosa, em conjunto com o Banco Central Europeu, que foi contra a compra de títulos soberanos desde o início, em um sinal de mais confusão à frente. A prova de que o caminho apontado pelo pacote não é plano veio, por exemplo, de um documento do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, obtido pela agência Reuters, mostrando a oposição de seu país a que o fundo de estabilização tenha carta branca para atuar no mercado secundário de títulos. Com isso, os rendimentos dos papéis italianos subiram para 5,76% e o dos espanhóis, para 6%. O pior indício de baixa confiança no plano, no entanto, veio após sua divulgação, quando o custo cobrado pelos investidores para comprar esses papéis praticamente não se mexeu.

A insustentável leveza da dívida

A insustentável leveza da dívida
Em 1987 aprendemos no Brasil uma grande lição, quando finalmente entendemos o momento em que uma dívida se torna impagável. Após a decretação oficial de moratória de nossa dívida externa em fevereiro de 1987, retornamos à mesa de negociação com os credores internacionais não mais em busca de um novo e inútil reescalonamento do principal e juros, mas sim de uma nova e inédita forma de reestruturação de toda dívida bancária externa, vencida e vincenda. Para os leitores mais jovens, que não viveram esse dramático momento da economia brasileira, é necessário recordar que desde o início da década de 80 o Brasil já se encontrava tecnicamente insolvente com os bancos internacionais. Em dezembro de 1982 havia sido reconhecida oficialmente pelo governo brasileiro a incapacidade de realizar com pontualidade as novas liquidações vincendas em moeda estrangeira, e pedimos auxílio ao FMI - Fundo Monetário Internacional, que impôs rígidas condições ao Brasil para seu apoio e aval ao processo de reescalonamento consentido da dívida externa. De 1983 a 1987 ficamos sujeitos a condições humilhantes de monitoramento econômico, seja pelo FMI como pelo Comitê de Bancos Credores, realizando periodicamente a rolagem do principal e de parte dos juros, estes cada vez mais altos, face ao chamado spread de risco aplicado sobre o total da dívida. Finalmente quando então foi declarada a moratória unilateral da divida brasileira em 1987 o mundo veio abaixo, no momento em que muitos bancos começaram a vendê-la no mercado secundário com deságio de 70% para se ver livre daquele "lixo" contábil.Diante dessa realidade, o próprio mercado já buscava uma solução heterodoxa para a dívida do Brasil, como dos demais países latinos americanos, também encalacrados fazia já quase 7 anos com os bancos internacionais e o FMI. Foi quando na troca de comando do ministério da Fazenda em abril de 1987, a nova equipe econômica então comandada pelo ministro Bresser-Pereira vislumbrou com coragem e sabedoria que era chegada a hora da reestruturação da dívida brasileira por meio da sua securitização, com base na emissão de um menu de bônus de longo prazo e com variantes de taxas juros fixas ou variáveis, valor de corte no principal da dívida, opções de conversão e resgate antecipado e garantias de instituições multilaterais. Infelizmente, em 1987 o então secretário do Tesouro americano chamava-se James Baker, um intransigente e arrogante líder republicano que colocou-se frontalmente contra a proposta brasileira. Em fins de 1987, o governo Sarney veio a sucumbir diante do poderoso lobby dos bancos e dos economistas conservadores de plantão, encerrando sem qualquer solução minimamente plausível o estado de moratória da divida externa. Ficamos com o ônus e sem nenhum bônus. Repete-se o mesmo erro passado, dos reescalonamentos infindáveis e do aumento sucessivo dos spreads de risco das dívidas da Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, e Itália. Quanto mais tempo passa, mais se deterioram as respectivas economias dessas nações europeias Em 1988, empossado como novo secretário do Tesouro dos EUA, Nicholas Brady entendeu de pronto a inevitabilidade da reestruturação da dívida latino americana e em vez de se tornar um espectador passivo dos fatos, se posicionou como protagonista da história e lançando mão da mal sucedida proposta brasileira no ano anterior, remodelou-a como o histórico Plano Brady, que em poucos anos pôs fim àquele dramático período conhecido pelos latinos americanos como "década perdida".Isso tudo me volta à memória agora em 2011, quando assisto ao "flashback reverso" dessa história, só que com outros personagens. Temos agora os países europeus e os Estados Unidos, nossos credores de 20 anos atrás, como países devedores a beira do colapso, enquanto o Brasil tornou-se um doador líquido de recursos ao FMI e figura hoje em dia entre os cinco maiores portadores de letras do Tesouro americano. E desde meados de 2008, e com mais ênfase a partir de maio de 2010, o mundo discute qual será a forma definitiva de resgate de alguns países europeus mais endividados e vulneráveis economicamente. Repete-se o mesmo erro passado, dos reescalonamentos infindáveis e do aumento sucessivo dos spreads de risco das dívidas da Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, e Itália. Quanto mais tempo passa, mais se deterioram as respectivas economias dessas nações europeias e de sua capacidade de enfrentamento convencional do pagamento das obrigações externas. Queda de investimentos, desemprego crescente, forte desequilíbrio fiscal, aguda recessão, são algumas das notícias que todos os dias nos acostumamos a assistir sobre esses países nos últimos meses. Na terceira semana de Julho, finalmente a União Europeia, reconheceu o inevitável calote da divida grega e anunciou timidamente uma forma de reestruturação voluntária de sua dívida, no estilo do Plano Brady. Melhor teria sido se finalmente os europeus, liderados pela Alemanha e pela França, viessem logo com um plano mais ambicioso e abrangente, de securitização gradual das dívidas de países europeus insolventes, de forma a repartir o custo desse resgate econômico entre os respectivos países devedores, seus respectivos credores, e os países da União Europeia como um todo, já que são sócios na união monetária e no Banco Central Europeu. Um reforço do mecanismo European Financial Stability Facility - EFSF- poderia proporcionar uma sólida garantia a novos títulos de longo prazo (Exchange Bonds) da dívida desses países devedores. Tais títulos seriam emitidos e trocados com descontos implícitos ou explícitos sobre o principal e juros da dívida velha, de maneira que tornassem sustentável tal dívida reestruturada no período de sua amortização, tal como ocorreu no caso do Plano Brady nos anos 90. Os países europeus em vias de default seriam automaticamente elegíveis ao uso dessa facilidade, desde que viessem a adotar medidas de disciplina fiscal e monetária compatíveis com as regras da União Europeia. Quem viver, verá, a insustentável leveza das dividas europeias e americana! Roberto Giannetti da Fonseca é empresário e economista, presidente da Kaduna Consultoria, e diretor titular de Relações Internacionais e de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Mercado está nas mãos do Congresso americano

Mercado está nas mãos do Congresso americano
Alta da Selic, inflação, queda acentuada do dólar, crise no governo brasileiro, balanços, problemas na Europa. Tudo isso é relevante, mas fica absolutamente em segundo plano quando se compara com o imbróglio na dívida pública americana. O destino do mercado está nas mãos do Congresso americano.Quanto mais se aproxima o dia 2 de agosto, data limite para uma definição, e nada se resolve, mais avessos ao risco ficam os investidores. A consequência é um mercado em compasso de espera, tendendo para a queda.Chance de não passar é desproporcional ao estrago na bolsa Ontem, o Indice Bovespa fechou em queda de 1,05%, aos 59.339 pontos, exatamente por causa desse cenário ainda muito nebuloso nos EUA. Na opinião de Ricardo Pinto Nogueira, diretor da corretora Souza Barros, todo mundo acredita que o Congresso americano vai aprovar o aumento do limite do teto. São remotíssimas as chances disso não acontecer."A questão é que, se esse 0,01% de chance ocorrer, o mundo inteiro vai sofrer de forma desproporcional a esse ínfimo percentual ", diz Pinto Nogueira. A conclusão é que investidores e analistas não querem nem pensar em pagar para ver uma possível zebra dessa magnitude.Assim como 99,9% do mercado, o diretor da Souza Barros acredita que os Republicanos vão aprovar o aumento do teto, mas apenas aos 45 do segundo tempo que, inclusive, se aproximam. Na visão dele, após a aprovação, a bolsa terá condições para começar um movimento de valorização. E, mesmo os problemas com Europa, devem ganhar um tom mais ameno. "O que são ? 120 bilhões de ajuda à Grécia perto dos US$ 4 trilhões da dívida americana que poderia ir para o brejo?", questiona Pinto Nogueira.Ontem, as ações de Cielo e Redecard lideraram os ganhos do Ibovespa, na expectativa dos resultados. Cielo divulgou os números após o fechamento, com lucro 7,5% abaixo do mesmo período de 2010. E Redecard solta seus resultados hoje. Depois de vários rumores, Drogasil e Droga Raia divulgaram à noite que estão negociando uma associação.Daniele Camba Responder Encaminhar Convidar NetcaféBR para bater papo

Racha entre republicanos dificulta acordo nos EUA

Racha entre republicanos dificulta acordo nos EUA
O presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, John Boehner, do oposicionista Partido Republicano, enfrentou ontem um levante contra seu plano para solucionar o problema do limite da dívida do governo federal. Um líderes do partido disse que estava "confiante" de que não havia deputados republicanos suficientes para aprová-lo. Três grupos conservadores também pediram que os congressistas votassem contra o plano. O deputado Jim Jordan, presidente da Comissão Republicana de Estudo, grupo de deputados conservadores, disse que o plano de Boehner não corta gastos o suficiente. Ele e outros conservadores são a favor do projeto "Corte, Limite e Equilíbrio do Orçamento", que combina as atuais reduções nos gastos com limites futuros, bem como com uma emenda constitucional obrigando o governo federal a nunca ter déficit no orçamento. Essa proposta não foi aprovada no Senado semana passada.Jordan disse que não havia o apoio mínimo de 218 republicanos na Câmara para aprovar o plano de Boehner. Ele lidera um grupo que inclui 178 dos 240 deputados republicanos. Isso amplia a incerteza sobre o resultado da crise do limite da dívida. O Congresso continuava num impasse ontem, uma semana antes de o governo americano ficar sem dinheiro para pagar as suas contas. Sem o apoio do Partido Democrata, Boehner só pode perder 23 votos de republicanos para conseguir aprovar seu plano na Câmara. Até agora, só 12 republicanos, incluindo a pré-candidata a presidente Michele Bachmann, já disseram publicamente que são contra o plano de Boehner. O vice-líder do governo na Câmara, o deputado democrata Seny Hoyer, disse que "muito poucos" deputados democratas vão apoiar o plano de Boehner, que deve ser votado hoje. Para complicar mais o problema de Boehner, três importantes grupos conservadores pediram aos deputados que votem contra o plano: o Clube para o Crescimento, a União Nacional de Contribuintes, e a Ação de Patrimônio para a América, braço lobista da Fundação Heritage, em Washington.O projeto de lei de Boehner não deve ser aprovado no Senado, onde a maioria democrata se opõe à medida. E a Casa Branca disse que o presidente Barack Obama vai vetar a lei se ela chegar à sua mesa.O plano de Boehner prevê cortes no déficit de ao menos US$ 3 trilhões em dez anos, ao mesmo tempo em que eleva o limite de endividamento em duas fases.O líder da maioria no Senado, o democrata Harry Reid, defende uma proposta que eleva o teto da dívida em US$ 2,7 trilhões, o que permitiria ao governo cobrir suas contas até 2012, ao mesmo tempo em que cortaria gastos pelo mesmo valor. O projeto de lei precisa do apoio de sete republicanos para obter 60 votos no Senado, e não está claro se esses votos existem.A busca de votos cresceu depois que Obama, em discurso no horário nobre anteontem, alertou que os EUA estão à beira de um default que causaria um choque econômico. "Ficamos num impasse", disse. Sem uma solução, "nos arriscamos a gerar uma crise econômica profunda, desta vez causada quase inteiramente em Washington"."Pela primeira vez na história, a nota de crédito AAA de nosso país pode ser rebaixada", disse Obama. "Os juros do cartão de crédito, da hipoteca e dos financiamentos automotivos iriam às alturas, o que seria igual a um aumento enorme de impostos do povo americano."Ele pediu aos americanos que peçam a seus congressistas para apoiar o plano de Reid, um toque partidário que pode prejudicar as chances de romper o impasse.Boehner também falou ao país na noite de segunda, logo depois do discurso de Obama. Ele defendeu seu plano. "O presidente já disse muitas vezes que precisa de uma abordagem 'equilibrada', o que significa em Washington que 'nós gastamos mais, você paga mais'", disse Boehner. "A triste verdade é que o presidente, seis meses atrás, queria um cheque em branco, e hoje ele quer um cheque em branco. Isso não vai acontecer."O debate entre os dois principais líderes do país, transmitido pela TV, ocorreu quase uma semana antes de o governo ficar sem poder rolar suas dívidas, uma possibilidade que os dois alertaram que seria uma catástrofe econômica.Os democratas no Senado planejavam realizar primeiro um teste de votação, mas na última hora decidiram adiar o plano até pelo menos quinta-feira. Um representante democrata disse que os líderes queriam esperar para ver se o projeto da Câmara seria derrotado hoje, o que tornaria o plano deles a última opção disponível.A aprovação na Câmara do plano de Boehner aumentaria imediatamente o limite de endividamento do governo, de US$ 14,29 trilhões, em cerca de US$ 1 trilhão e permitiria mais um aumento de até US$ 1,5 trilhão ano que vem.Boehner disse que a primeira fase do novo limite da dívida levaria o governo até fevereiro ou março, impondo ainda cortes de US$ 1,2 trilhão nos gastos por meio de vários limites orçamentários. Além disso, o Congresso teria de votar até o fim do ano uma emenda à Constituição para obrigar o governo a equilibrar o orçamento.Obama é totalmente contra o aumento do limite em duas fases. Reid disse que seu plano atenderia a exigência de Boehner de que qualquer alta no limite da dívida seja acompanhada de cortes no orçamento em valor igual ou maior.

Fundos elevam liquidez por temor de resgates

Fundos elevam liquidez por temor de resgates
Fundos de investimento no mercado monetário de curto prazo estão entesourando dinheiro, nos EUA, para se protegerem contra a eventualidade de o Congresso não elevar o limite de endividamento, distorcendo o mercado de curto prazo da dívida pública americana e elevando os custos da tomada de empréstimos por bancos e outras instituições financeiras.Esses fundos manterão sua exposição a títulos do Tesouro dos EUA em caso de rebaixamento da classificação de crédito ou de calote, mas estão melhorando sua liquidez e mantendo distância de certos títulos, por temor de que uma não elevação do teto de endividamento possa deflagrar resgates de aplicações pelos clientes.Fundos do mercado monetário que somente aplicam em títulos governamentais ampliaram seu volume de dinheiro disponível para atender resgates de 68% dos ativos no prazo de uma semana, em comparação com 48% no fim de março, segundo a Barclays Capital. "Reforçamos nossa liquidez com uma quantidade bastante significativa de títulos com vencimentos anteriores à data limite para uma elevação do teto da dívida", disse Robert Brown, diretor de operações da Fidelity para o mercado financeiro de curto prazo.Os bancos também estão mantendo mais dinheiro em caixa, e as grandes empresas americanas estão adiando decisões devido à incerteza sobre onde investir seu dinheiro, em meio ao temor de que a não elevação do limite máximo de endividamento possa levar a um rebaixamento da classificação de crédito e possível calote dos EUA.Os fundos estão evitando os títulos de um mês do Tesouro com vencimento em 4 de agosto e 11 de agosto. "Esses são os títulos mais vulneráveis a algum tipo de mudança", disse Joseph Abate, estrategista do Barclays Capital.As taxas de juros oferecidas pelos dois títulos de dívida com prazo de um mês estão em mais que o dobro da taxa para empréstimos ao governo vinculados a títulos com maturação de três meses com vencimento em setembro.Os fundos do mercado monetário, que detém US$ 338 bilhões de dívida governamental americana, de acordo com o Citigroup, estão também estreitando o tempo durante o qual mantêm-se dispostos a conceder empréstimos, o que poderá levantar questões de liquidez, para os bancos, pois eles dependem de tomar empréstimos no mercado de recompra de títulos (repo, no jargão em inglês.Um dia depois de o presidente Barack Obama ter exortado os legisladores a chegarem a uma "solução justa baseada em concessões mútuas" no próximos dias, não havia nenhum sinal imediato do progresso. Democratas no Senado e republicanos na Câmara dos Representantes estão formulando planos independentes para elevar o limite da dívida nacional. Apesar do nervosismo, os EUA venderam US$ 35 bilhões em títulos de dois anos com um rendimento de 0,417% na terça-feira, uma taxa melhor do que a esperada, embora a demanda tenha se revelado menor do que a prevista.

Impasse leva fundos e empresas dos EUA à proteção da liquidez

Impasse leva fundos e empresas dos EUA à proteção da liquidez
Fundos de investimento no mercado monetário de curto prazo nos EUA estão entesourando dinheiro para se proteger contra a eventualidade de o Congresso não elevar o limite de endividamento, distorcendo o mercado da dívida pública americana e elevando os custos da tomada de empréstimos por bancos e outras instituições financeiras.Esses fundos estão melhorando sua liquidez e mantendo distância de determinados títulos, por temores de que uma não elevação do teto de endividamento possa deflagrar resgates de aplicações por parte de clientes. Os fundos que só aplicam em títulos governamentais ampliaram o volume de dinheiro disponível para atender resgates de 48% (no fim de março) para 68% dos ativos, segundo a Barclays Capital. Eles evitam os títulos de um mês do Tesouro com vencimento em 4 de agosto e 11 de agosto.Empresas americanas adiam decisões de negócios e se defrontam com possíveis problemas na escolha de onde investir seu dinheiro. Jeff Wallace, sócio-gerente da Greenwich Treasury Advisors, disse que os tesoureiros de grandes empresas estão paralisados "como um cervo diante dos faróis de um automóvel". Muitas companhias acumularam muito dinheiro como defesa. "Como aprendemos na crise financeira de 2008, liquidez é tudo", diz Deas Thomas, vice-presidente da empresa química FMC.